Jornalismo sob ameaça: O caso da Global Media

Uma análise ao mais recente caso da Global Media Group.

ARTIGO

Cristiana Sá

3/17/20245 min read

O Global Media Group (GMG), grupo empresarial assim denominado desde 2005, que aglomera diversos nomes da comunicação social portuguesa, mudou de mãos em setembro do ano passado.

Alterações deste género acontecem com frequência e são a normalidade no mundo dos negócios. Porém, logo após a operação, verificou-se um atraso no pagamento de salários. Adicionalmente, houve um anúncio de que o grupo pretendia reduzir o pessoal em 30%.

Perante isto, os trabalhadores do Jornal de Notícias (JN), pertencente ao GMG, inauguraram os protestos em dezembro. A sua greve, que teve uma duração de dois dias, desencadeou a ausência de publicação do jornal. Paralelamente, o JN lançou uma petição online contra a redução de postos de trabalho, alcançando cerca de duas mil assinaturas nas primeiras vinte e quatro horas.

A 10 de janeiro, o grupo na sua totalidade parou e saiu à rua: não houve atualizações de sites, edições em papel, nem momentos noticiosos na TSF.

O novo CEO, José Paulo Fafe, apresentou as suas razões para a redução de pessoal e para o atraso nos salários. A primeira deve-se à fragilidade financeira crónica do grupo – com prejuízos nos últimos 10 anos – que Fafe calculava que seria solucionada com cortes nas despesas. Igualmente, também o atraso nos salários se atribui à situação financeira. Mas o CEO afirma que a incapacidade de pagar aos trabalhadores foi precipitada pelo cancelamento de um negócio que prometia trazer mais liquidez ao GMG. Refiro-me à venda da sua participação na Agência Lusa ao Estado português, que estava já prevista mas sofreu um recuo do Governo por “falta de um consenso político alargado”.

Foram estes os factos principais. Posto isto, a primeira questão é: devemos estar preocupados com este assunto? É este um problema apenas entre empresa e funcionários que, mesmo que estejamos solidários, cabe aos envolvidos aceitar? Ou haverá razões pelas quais o caso também nos diga respeito? Por que razão até os partidos políticos se pronunciaram sobre esta situação, no final de 2023?

As empresas do grupo constituem uma porção significativa dos canais que disponibilizam, aos portugueses, acesso a notícias, como o Diário de Notícias e a TSF.

Além disso, o JN é o último diário nacional de grande tiragem cuja redação está no Porto. Ficar sem ele significaria perder uma voz diferente no panorama nacional. Mesmo não sendo perfeito, penso que podemos apontar ao JN algumas virtudes muito próprias. Opta por não utilizar linguagem e conceitos especialmente técnicos (no que toca, por exemplo, à economia) e recusa, ao mesmo tempo, ceder ao sensacionalismo.

Perder o JN significaria, também, uma perda para a identidade do Porto. Como todas as cidades, o Porto tem uma identidade e um conjunto de baluartes que a mantêm viva. O Jogo e, principalmente, o JN, além de serem órgãos para a vida do país, também carregam, como a francesinha, a essência do Porto.

Podemos, então, dizer que esta causa dos trabalhadores do GMG é uma causa de muitos, aliás de todos os cidadãos portugueses, num âmbito para lá da solidariedade com as vidas individuais que serão afetadas pela perda de emprego. Concretamente, não é indiferente para os portugueses o destino desta empresa, podemos até dizer que há uma necessidade de garantir a integridade da sua continuidade, pelo menos dos seus títulos mais importantes.

Porém, nestes assuntos, muitas vezes, no calor do momento e diante da importância daquilo que está a ser perturbado, é deslocado o cerne da questão. De que forma é que melhor se protegem os órgãos de comunicação social do GMG? A função do GMG para a democracia e para a identidade do Porto pode não vir a ser comprometida por medidas como o corte do número de funcionários, se essas medidas forem a única forma de salvar o grupo da extinção e caso, simultaneamente, as publicações consigam manter o seu papel, não o desvirtuando com a redução de funcionários.

Mas, antes de mais, importa saber em que contexto é que a situação chegou a este ponto. É apenas um problema particular de uma empresa específica ou há problemas no setor como um todo? É possível que estejamos perante uma tendência que ameaça atingir todo o setor da comunicação social em Portugal. Se assim for, é necessário ter uma compreensão global do mesmo.

A verdade é que me parece claro que uma análise preliminar de qualquer cidadão diagnostica a situação do GMG como uma imagem do setor. Temos assistido à diminuição da sua prevalência: com cada vez mais dispensa da compra de edições impressas e o novo hábito de receber notícias só através das redes sociais, embora as marcas mantenham a sua imagem de prestígio e fiabilidade.

De facto, as tiragens têm vindo a reduzir-se drasticamente: entre 2013 e 2023, houve descidas, por exemplo, de mais de 50% no Público (de 23 para 10 mil), no JN (de 66 para 19 mil) e no Correio da Manhã (de 115 para 41 mil, tudo em valores aproximados). Também a adesão à subscrição de notícias online é comprometida por uma convicção de que o acesso à informação deve ser gratuito. A acrescentar a isto, as redes sociais têm vindo a recolher grande parte das receitas de publicidade que antes correspondiam às do setor da comunicação social.

Da perspetiva dos jornalistas, a situação tem sido de precariedade laboral, como foi apontado na resolução final do 5.º Congresso dos Jornalistas, de janeiro passado.

Além disso, os cidadãos têm vindo a confrontar-se com a questão das notícias falsas, que se disseminam nas redes sociais. Como apontado ainda pelo Congresso, a precariedade dos jornalistas pode levar a pôr em causa princípios éticos e, deste modo, baixar os padrões de qualidade da informação.

Há uma confirmação, então, do que se observa à primeira vista: é o setor que está a atravessar uma fase de mudança, e essa mudança está a começar a tornar-se tumultuosa. Posto isto, as questões são: a quem compete dirigir essa mudança? Apenas ao mercado ou à intervenção de terceiros? Dependerá isto de convicções políticas?

Compreendemos, por exemplo, que a Nokia não teve outra opção que não lidar com as suas decisões quando a procura dos seus produtos foi desviada pelos smartphones.

Todavia, a importância, numa democracia, de ter uma comunicação social independente, plural e de qualidade é indiscutível. Sem ela, em vez de cidadãos, seríamos meros peões alheios ao modo como somos governados. Em Portugal, o setor está mesmo consagrado na Constituição (art.º 38.º), ou seja, é dever do país protegê-lo.

Em fevereiro, pareceu que se vislumbrava um final feliz espontâneo para a situação do GMG: houve um acordo para a compra de alguns títulos do grupo por parte da empresa OfficeTotal Food Brands, de Ponte de Lima. O acordo abrangia o Jornal de Notícias, O Jogo, as revistas JN História, Notícias Magazine, Evasões, Volta ao Mundo, a TSF e a Rádio Comercial dos Açores e deveria garantir os respetivos postos de trabalho.

Contudo, entretanto, vimos que (dentro das fronteiras do GMG) a redução de custos com pessoal se mantém. Soube-se, na última terça-feira, que haverá um despedimento coletivo de 20 pessoas no Diário de Notícias.

Assim, permanece um cenário de um certo desmantelamento e incerteza. Que consequências terá a redução de custos no GMG? E durante quanto tempo teremos relativa estabilidade, antes de outros órgãos de comunicação começarem a mostrar sinais de colapso?

Como sociedade dependente deste setor, precisamos de encontrar um modo de o proteger antes que este se despedace. Enquanto cidadãos, cabe-nos fazer a nossa parte na vida individual, contribuindo para as receitas das empresas de comunicação social ao preferir e procurar informação de qualidade.