O Xadrez Político das Eleições Presidenciais de 2026

Uma análise às possíveis candidaturas a Belém e todo o jogo político-partidário associado

ARTIGOPOLÍTICA

Guilherme Santos

11/26/20238 min read

As eleições Presidenciais de 2026 são uma verdadeira incógnita. Em 21 anos de vida, nunca senti que tenha pairado tanta dúvida sobre quem serão os candidatos que ousam querer representar a República Portuguesa, garantir a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas. Numa altura em que o tema quente do panorama nacional são as Legislativas de março de 2024, é pertinente não esquecer o efeito dominó inerente a cada passo dado.

Se é verdade que, há poucas semanas, o cenário político era um, também o é que muita coisa, entretanto, mudou. O Primeiro-Ministro demitiu-se e o Governo caiu com ele. Com Legislativas em 2024, o xadrez político intensifica-se e a análise torna-se mais interessante.

É justo acertar que o atual Comandante Supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa, foi um candidato consensual. É impossível agradar a gregos e a troianos, mas a verdade é que, olhando para os resultados das suas consecutivas eleições, restam poucas dúvidas: o Professor conquistou a confiança dos portugueses. Conseguiu, com sucesso, mantê-la, acumulando mais votos e aumentando o seu peso relativo, aquando da sua reeleição, em 2021.

Ora, apesar de ainda restar um pouco mais de dois anos para chamar os portugueses à urna Presidencial, já são perfeitamente observáveis jogadas políticas ativas e o início do jogo de xadrez pelo trono (republicano, diga-se) português.

Em primeiro lugar, julgo importante constatar que é inevitável encarar estas eleições, que por excelência se dizem diretas e pessoais, como uma guerra entre Esquerda e Direita, ainda que de tal não se trate. Desengane-se, no entanto, quem julga que se tratará de uma guerra de duas frentes. Há, postas as cartas na mesa, uma variedade de nomes que se levanta e se discute em praça pública quer à Esquerda, quer à Direita.

Proponho-me a debater alguns. Ora, começando pela primeira, a verdade é que o candidato que o Partido Socialista apoiar (se, naturalmente, assim a direção do Partido entender) será aquele mais bem posicionado para disputar verdadeiramente a eleição. Surgem três grandes potenciais nomes. António Costa é um que naturalmente se impõe. Não seria a primeira vez que um antigo primeiro-ministro acaba em Belém, longe disso. Costa, apesar do recente escândalo a si associado, não perderá, creio, credibilidade política se não houver atualizações no que concerne à sua investigação pelo Ministério Público. Foi chefe do executivo por cerca de 8 anos e uma boa parte do eleitorado continua com Costa em boa conta. Dirá mais do eleitorado do que de Costa em si, mas será um tema para discorrer em artigo futuro.

No entanto, ser Presidente da República é muito mais que vetar leis e aplicar bombas atómicas constitucionais. Ser Presidente da República é ser a cara da Nação, é conseguir inspirar cada português, sem querer incorrer em romantismos excessivos. E, quanto a isso, a venda de imagem é crucial e decisiva. Costa já provou ser mestre na arte de fazer política. Se o tema fosse fazer políticas (no plural), o debate correria o risco de se tornar demasiado ideológico e não é esse o objetivo do artigo. Não é, ainda assim, o único nome que surge das atuais funções públicas do Estado Português. Augusto Santos Silva, Presidente da Assembleia da República (que será, entretanto, dissolvida), é outro nome com o relevo necessário.

Santos Silva, na minha ótica, tem a si associado um paternalismo recorrente em consecutivas tentativas de se afirmar como juiz do Parlamento. Ora, não compete ao Presidente da Assembleia República impor aquilo que lhe apetece na Assembleia de Deputados. Cabe-lhe regular o seu funcionamento e pugnar pela igualdade associada aos partidos políticos (e seus representantes). Santos Silva pretende ser um político sério, não tenho dúvidas. Mas o “chega para lá” constante ao partido com o mesmo nome, cai, na minha opinião, na pré-campanha que ele considera agradar ao eleitorado que quer conquistar. O fenómeno populista do Chega tem de ser olhado com cuidado e gerido em concordância. As tentativas de marginalização aos seus deputados eleitos só contribuem para a martirização. O populismo vence com tal tratamento. Vencemo-los com debate de ideias e com a sua normalização enquanto partido político. Enquanto o lema de “contra tudo e contra todos” subsistir no discurso dos populistas, o trabalho dos democratas moderados está mal feito. Nesse aspeto, Santos Silva não tem feito um bom trabalho. Embora, claro está, perceba o objetivo das suas ações: gerar em si a imagem de candidato a PR que nem ouvir do Chega quer, mesmo que vão ganhando força. A verdade é que, dessa forma, acaba por conquistar eleitorado e será um possível candidato a ter em conta.

Ainda no que respeita à Esquerda, há vários candidatos com nome e uma certa possibilidade da sua candidatura. Ora, julgo que entre estes o nome mais forte é António Guterres. A verdade é que a imagem do “pântano político” a si associada depois do seu período como Primeiro-Ministro já foi há muito limpa.

Guterres é, atualmente, secretário-geral das ONU. Curiosamente, numa sondagem feita em setembro deste ano pela Aximage para o JN, DN e TSF[1], Guterres é o favorito do eleitorado à Esquerda, mesmo não tendo revelado qualquer intenção de se candidatar. O seu mandato nas Nações Unidas apenas finda em dezembro de 2026, pelo que a sua candidatura implicaria uma manobra ativa da sua parte, evidentemente. A maneira como a Guerra na Ucrânia e em Gaza se vai desenvolver (ou findar), acabará por ditar se o seu mandato cumprirá o período designado ou não. O que, naturalmente, também determinará a sua abertura para uma eventual candidatura, caso não pondere uma saída antecipada.

Visto o cenário à Esquerda, é hora de olhar para o outro lado do espetro. O xadrez da Direita pode ser mais complexo. Mais possíveis candidatos, mais jogos políticos. Começando pela Direita mais firme (nestes modos me referirei à mesma), André Ventura já se pronunciou[2]. O líder do Chega afirma que tem condições de, na sua pessoa, apresentar um candidato às eleições. Garantiu que não se revê em Luís Marques Mendes (aí chegarei) e que o seu partido apoiará um candidato que passará à segunda volta. Não é a primeira vez que Ventura aponta objetivos altos ou irrealistas. Já nas Presidenciais passadas garantiu que se demitia se Ana Gomes tivesse mais votos. Demitiu-se, é verdade. Mas rapidamente se recandidatou e, sendo o Chega o partido tão unipessoal que é, voltou a ganhar por extensíssima margem. A típica “semiverdade”.

Embora seja verdade que Ventura dá resposta a um determinado eleitorado revoltado com o atual sistema, bem como a algum eleitorado mais à Direita, na minha opinião, reside em Ventura um receio. O líder do Chega, como já se tem visto, não tem qualquer medo da Esquerda e enfrenta-a, usando até a marginalização a que é sujeito como aproveitamento político da sua causa. O medo que Ventura tem reside na figura de Pedro Passos Coelho. Passos Coelho, outro possível candidato a Belém em 2026, representa uma Direita plenamente unida e com improváveis divisões entre si. Ventura já confessou o seu respeito e dita “amizade” com o antigo líder social-democrata, pelo que a candidatura de Passos o colocaria numa posição delicada. Não pode concorrer contra ele, sob pena de perder credibilidade junto do eleitorado. Ousaria até dizer que uma boa parte do eleitorado do Chega não votaria em André Ventura perante uma candidatura de Passos. Passos representa, ilusoriamente ou não, a unificação das várias frentes de Direita. O espaço do espetro político que alcança é tal que, na minha opinião, compreende tudo o que está entre Centro e Direita, abrangendo todos os partidos que por aí se situam. E Ventura não se pode dar ao luxo de perder o que já conquistou pelo regresso do “Messias” da Direita. Se tal acontecer já nas Legislativas – que não me parece muito provável – naturalmente que não se coloca esta questão para as Presidenciais, por inerência.

Não fiquemos por aqui. Luís Marques Mendes já confessou que considera a sua candidatura a Belém[3]. Olhando para o seu percurso no panorama televisivo nacional, a verdade é que não se afasta assim tanto do atual Presidente. À semelhança de Marcelo (embora, este último, na TVI), Marques Mendes também tem um espaço habitual de comentário político (na SIC). Também ele já presidiu o PSD e se apresenta como moderado e experiente. A sua candidatura implicaria, a meu ver, o surgimento de candidatos apoiados separadamente pela IL e pelo Chega. Seria inevitável.

Outro nome em cima da mesa é incontornavelmente Paulo Portas. Tem um importante segmento aos domingos na TVI, o Global, o que lhe acrescenta credibilidade nesta fase mais recente, acentuando a sua imagem de não ser um político de profissão. A possível candidatura de Portas também colocaria uma série de questões. Candidatar-se-ia contra Pedro Passos Coelho, na eventualidade de este se adiantar? Tenho sérias dúvidas. O contrário também se aplica, pelo que diria que estas candidaturas seriam mutuamente exclusivas.

Se acham que o xadrez acaba aqui, estão muito enganados. Há ainda um nome muito forte que não trouxe à discussão, por não se enquadrar propriamente em nenhum lado do espetro: Henrique Gouveia e Melo. Duvido que exista algum português que não conheça o nome do Coordenador da Task Force para o Plano de Vacinação contra a COVID-19 em Portugal. Antigamente tendo também o cargo de Vice-Almirante, o que não corresponde à realidade nos dias de hoje. Atualmente, Gouveia e Melo é o Chefe do Estado-Maior da Armada.

Será para já impossível antever se esta candidatura irá ou não acontecer. Outrora, já havia proferido leves profecias de uma candidatura, tais como as suas célebres frases “o futuro a Deus pertence”, “não se deve dizer desta água não beberei” ou “tenho fome vencer”. A verdade é que anunciou, em maio, não ser candidato. Esta mudança de postura dá-se depois de António Silva Ribeiro, ex-Chefe do Estado Maior da Armada, o ter acusado de estar ativamente a prejudicar as Forças Armadas[4].

A verdade é que ainda faltam mais de 2 anos para qualquer oficialização de candidatura e muita água irá correr. Gouveia e Melo é um candidato muito popular e até lidera determinadas sondagens[5]. Não é, no entanto, por isso, que o trago à discussão.

A possível candidatura de Gouveia e Melo pode ser a peça-chave no xadrez Presidencial. A sua isenção partidária é motivo para qualquer partido, à falta de melhor candidato a apresentar (apoiar, na realidade), cante vitória na eventual eleição do antigo Vice-Almirante. Imaginando o cenário que ou Passos Coelho ou António Costa se candidatam à Presidência da República em 2026. À falta de candidato mais forte, qualquer partido – PSD ou PS, neste caso – pode chegar-se à frente e mostrar o seu apoio a Gouveia e Melo.

A verdade é que o cenário é ainda muito imprevisível. Há vários fatores a ter em conta: que candidatos se apresentam primeiro, o efeito dominó que as Legislativas de 2024 terá nas eleições subsequentes e, evidentemente, as vontades de cada uma destas pessoas. Curiosamente (ou não), este último elemento foi aquele que menos tive em consideração durante o artigo.

Deixo votos para que aqueles que ousarem representar a República Portuguesa o façam por algo muito maior que eles próprios. Que não o façam por ambição própria. A defesa da nação e de cada português é algo que transcende a mera ação política. Representar Portugal é ser a voz de cada um de nós. Mais, é ser a voz dos que já cá não estão, mas que tanto deram ao nosso povo. Não esqueceremos. Que se faça por relembrar.

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Neptuno e Marte obedeceram:

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.

Os Lusíadas, canto I.


[1] https://observador.pt/2023/09/25/presidenciais-guterres-e-o-mais-desejado-a-esquerda-mendes-e-passos-empatam-a-direita-revela-sondagem/

[2] https://cnnportugal.iol.pt/videos/presidenciais-se-marques-mendes-e-santos-silva-avancarem-andre-ventura-assume-candidatar-se-tambem-tenho-uma-propensao-muito-grande-para-assumir-esse-desafio/64efb8410cf265bc967e2c4a

[3] https://www.publico.pt/2023/08/27/politica/noticia/marques-mendes-admite-candidatarse-presidencia-republica-2061405

[4] https://www.publico.pt/2023/09/02/politica/noticia/gouveia-melo-calase-presidenciais-apos-ordem-exchefe-2062030

[5] https://observador.pt/2023/10/09/sondagem-almirante-gouveia-e-melo-continua-a-ser-o-favorito-para-as-presidenciais/

Este artigo representa única e exclusivamente a opinião do seu autor, não representando no todo ou em parte a opinião da Católica Policy Society.